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 O Brincar

  Centro de Estudos do Lazer, Educação, Integração, Recreação e Ócio - CELEIRO

Número 01   -   Ano I  -  Outubro 2009

 

 

A importância do brincar

Falar sobre a importância do brincar é uma tarefa bastante complexa.  Se pensarmos em falar para especialistas, esta importância é quase que uma unanimidade e poucos se preocupariam em entender a fundo este tema.  Todos acreditam neste fato, embora as comprovações ainda se mostrem de forma bastante empírica. 

Se, por outro lado, pensarmos em falar para pais, ou profissionais que não estão diretamente ligados ao universo infantil a tarefa não será tão fácil, e talvez nem toda argumentação do mundo possa chegar a um bom resultado.

O brincar sempre esteve ligado por oposição ao não trabalhar, e por conseqüência, ligado à idéia de atividade sem comprometimento com o futuro, sem características de importância.  Ficou sempre relegado a um segundo plano, de restauração das forças para o trabalho, de descanso para um melhor rendimento no trabalho, ou seja, sempre como uma característica de pausa momentânea de objetivos.

Quando os pais se preocupam com o futuro de seus filhos acabam seguindo esta mesma linha de raciocínio, de que o brincar é uma temporária perda de tempo, que deve ser logo sucedida por uma atividade de grande importância na preparação do futuro profissional de seus filhos, afinal, quando o trabalho é a referência, o brincar pode ficar para depois.

Sendo assim os pais enchem seus filhos de mais e mais atividades de estudo, além do período escolar, com idiomas, informática, robótica, etc.  deixando sempre o brincar em segundo plano, isto quando não matam totalmente o tempo de brincar.

Assim também pensam muitas escolas.  Aulas teóricas, cada vez em maior quantidade, mais complexas, exigindo mais disciplina, ordem, concentração.  Brincar é coisa para outro momento.

E qual é o momento do brincar?

O que estes pais e profissionais não sabem é que o brincar faz parte da sábia natureza infantil. No brincar é que surgem as bases para todo o desenvolvimento das habilidades que serão imprescindíveis para o mercado profissional e para a vida em sociedade.  Sem esta base, muitos terão maiores dificuldades em adquirir as mesmas habilidades e acabarão conseguindo de maneira não lúdica e menos natural, senda assim uma aquisição mais sofrida.

O brincar é uma atividade natural das crianças em todos os tempos e em todas as regiões do mundo.  O desenvolvimento humano ocorre através destas experiências.  Através da brincadeira a criança descobre seu corpo, seus movimentos, a comunicação, os objetos, as pessoas, etc. Como disse Johan Huizinga, "somente jogando o indivíduo conhece o seu próprio 'eu'". Tudo na infância é uma brincadeira de tentativas e análise de resultados.  Os resultados bons deste jogo de tentar vão sendo registrados em um setor específico: brincadeiras que gostaria de repetir.  Outros resultados, os aparentemente negativos, registrados em outro campo: brincadeiras que vou tentar evitar.  E assim aprendemos, criamos nossa comunicação, trazemos a mamãe para perto, controlamos a temperatura chutando o cobertor, entre muitas outras experiências e análises de resultados.  Quando nascemos somos excelentes pesquisadores e é através do brincar que executamos nossa rotina de pesquisa e obtenção de informações.

 

A criança muito antes de se comunicar pela fala, pela escrita, se comunicará com eficiência através do corpo, dos gestos e movimentos.  Brincará com cada parte do corpo e descobrirá os efeitos de cada uma, aprendendo a obter a resposta desejada, aprendendo a se comunicar com as outras pessoas e a suprir suas necessidades.

Mais tarde a brincadeira se tornará o mecanismo oficial de expressar seus pensamentos mais profundos.  Notamos nas brincadeiras os anseios, vontades, medos e dificuldades das crianças sendo expressas de maneira única, de uma forma que não é expressa em sua comunicação regular com os parentes e amigos.

brincar dentro do contexto educacional

Dentro do um pensamento educacional podemos comentar o quanto estes elementos positivos do brincar podem se tornar parceiros do professor.  Coordenar algo que já é natural da criança se apresenta como uma ferramenta tão mais fácil, no sentido de se atingir melhores resultados.  Esta ferramenta pode agregar valores ótimos do ponto de vista de formar um indivíduo pensante, que gosta de estudar e descobrir, tem prazer em investigar e registrar novas informações, participa e não tem medo de se expor, de errar ou acertar, trabalha em grupo e é cooperativo.  Como?

 

 

O lúdico gera prazer, alegria.  Os alunos gostam de ir à escola desenvolver atividades recreativas, afinal estão indo brincar.  Brincando sob a coordenação qualificada de um professor que se aprofundou no assunto e é um mestre na arte de brincar apreende informações valiosíssimas no âmbito motor, social, cognitivo e afetivo.  Em paralelo seu aprendizado, apesar de orientado, não apresenta referenciais punitivos de certo e errado, ficando assim aprendizados de atividades que devem ser repetidas por trazerem resultados satisfatórios para o indivíduo e as que não devem mais ser experimentadas por trazerem resultados insatisfatórios.  Um mecanismo de aprendizado ideal!

E o que este aluno está aprendendo?

Bom, as práticas orientadas de recreação podem desenvolver os aspectos motores de lateralidade e direcionalidade, a coordenação motora grossa e fina, o ritmo, a cadência, os conceitos de rápido e lento, de alto e baixo, de forte e fraco, de apertado e espaçoso, perto e longe, entre outros que além de motores também influenciarão o amadurecimento cognitivo.

Também provocarão movimentos musculares, coordenação óculo segmentar, dimensionamento espaço temporal, estimulação do córtex cerebral, cerebelo, sistema digestivo, labiríntico, límbico, entre outros que atuarão diretamente no desenvolvimento corporal, e indiretamente no sistema de inteligência, agindo ainda no controle da ansiedade – “mente sã em um corpo são!”

Em outra ótica podemos considerar um gigante incremento nos aspectos sociais, uma vez que jogos recreativos bem orientados estimulam o trabalho em grupo, a cooperação, a competição saudável, a ética, o comprometimento com o objetivo comum, a perseverança em atingir os objetivos, a concentração, a observação das necessidades, dificuldades e facilidades do outro, a avaliação de suas habilidades, enfim, muito do que se pede na vida social e profissional.

Podemos observar também o crescimento cognitivo provocado pelo brincar.  Neste aspecto se destacam as ações de comunicação, o exercício da linguagem, a argumentação, o estabelecimento de metas, o planejamento, a criação de estratégias, a articulação de variáveis distintas, o estabelecer e o aceitar de regras, os cálculos de volume, direção, tempo que muitos jogos propiciam, a criatividade, o fingir ser algo que não é, o representar, o utilizar objetos de modo criativo, com outro uso que o seu original, o perceber o outro, o comandar, o ser comandado, bem, estes seriam algumas habilidade intelectuais obtidas com a utilização do jogo certo, da maneira certa.

Ainda em um novo aspecto podemos citar o amadurecimento emocional.  Uma pessoa ao brincar se envolve de maneira integral, claro, se o brincar está sendo dirigido de maneira adequada.  Com o envolvimento permitimos gestos novos, olhares novos, atitudes espontâneas, liberdade e prazer.  Isto pode provocar um aumento de auto-estima que por si só seria de grande ajuda no amadurecimento emocional.  Mas isto ainda acontece em um ambiente coletivo, o que permite o ganho de estima em relação a um grupo, o fazer parte de algo, o ser integrante de alguma coisa maior.  Crianças que brincam em grupo de maneira bem orientadas, aprendem a fazer parte, a notar que existe o outro, com valores, virtudes e falhas.  Que você como indivíduo também tem seus valores, virtudes e falhas, e que isto torna as pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.  Aprendemos com a recreação a ser parte de uma sociedade, de maneira emocionalmente equilibrada, respeitando as diferenças e valorizando a iniciativa e a ação em detrimento de uma cobrança social de padrões irreais, que causam baixa auto-estima e que tolhem a vontade, que matam os sonhos de viver.

E por fim, gostaria de dizer que o mais mágico é que isto tudo ocorre simultaneamente, garantindo integralidade, um ser pleno de todos os seus horizontes, e se desenvolve através do prazer, gerando vontade e motivação.

Pois bem, estaremos discutindo cada um destes temas isoladamente (só por objetivos didáticos) nos próximos meses, sendo assim, se você tiver algo para contribuir, nos encaminhe, e participe desta construção democrática de um conteúdo que é tão rico e que está tão esquecido de lado!

Até a próxima amigos leitores!

Prof. Ronaldo Tedesco Silveira

É especialista em Educação Superior, trabalha com recreação infantil há 17 anos, com experiências inclusive fora do país.  Atualmente realiza consultoria e treinamento para empresas do setor, acampamentos educacionais e escolas.

 

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