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A
importância do brincar
Falar sobre a
importância do brincar é uma tarefa bastante complexa. Se
pensarmos em falar para especialistas, esta importância é quase
que uma unanimidade e poucos se preocupariam em entender a fundo
este tema. Todos acreditam neste fato, embora as comprovações
ainda se mostrem de forma bastante empírica.
Se, por outro
lado, pensarmos em falar para pais, ou profissionais que não estão
diretamente ligados ao universo infantil a tarefa não será tão
fácil, e talvez nem toda argumentação do mundo possa chegar a um
bom resultado.
O brincar sempre
esteve ligado por oposição ao não trabalhar, e por conseqüência,
ligado à idéia de atividade sem comprometimento com o futuro, sem
características de importância. Ficou sempre relegado a um
segundo plano, de restauração das forças para o trabalho, de
descanso para um melhor rendimento no trabalho, ou seja, sempre
como uma característica de pausa momentânea de objetivos.
Quando os pais se
preocupam com o futuro de seus filhos acabam seguindo esta mesma
linha de raciocínio, de que o brincar é uma temporária perda de
tempo, que deve ser logo sucedida por uma atividade de grande
importância na preparação do futuro profissional de seus filhos,
afinal, quando o trabalho é a referência, o brincar pode ficar
para depois.
Sendo assim os
pais enchem seus filhos de mais e mais atividades de estudo, além
do período escolar, com idiomas, informática, robótica, etc.
deixando sempre o brincar em segundo plano, isto quando não matam
totalmente o tempo de brincar.
Assim também
pensam muitas escolas. Aulas teóricas, cada vez em maior
quantidade, mais complexas, exigindo mais disciplina, ordem,
concentração. Brincar é coisa para outro momento.
E qual é o
momento do brincar?
O que estes pais e
profissionais não sabem é que o brincar faz parte da sábia
natureza infantil. No brincar é que surgem as bases para todo o
desenvolvimento das habilidades que serão imprescindíveis para o
mercado profissional e para a vida em sociedade. Sem esta base,
muitos terão maiores dificuldades em adquirir as mesmas
habilidades e acabarão conseguindo de maneira não lúdica e menos
natural, senda assim uma aquisição mais sofrida.
O brincar é uma
atividade natural das crianças em todos os tempos e em todas as
regiões do mundo. O desenvolvimento humano ocorre através destas
experiências. Através da brincadeira a criança descobre seu
corpo, seus movimentos, a comunicação, os objetos, as pessoas,
etc. Como disse Johan Huizinga, "somente jogando o indivíduo
conhece o seu próprio 'eu'". Tudo na infância é uma brincadeira de tentativas e análise
de resultados. Os resultados bons deste jogo de tentar vão sendo
registrados em um setor específico: brincadeiras que gostaria de
repetir. Outros resultados, os aparentemente negativos,
registrados em outro campo: brincadeiras que vou tentar evitar. E
assim aprendemos, criamos nossa comunicação, trazemos a mamãe para
perto, controlamos a temperatura chutando o cobertor, entre muitas
outras experiências e análises de resultados. Quando nascemos
somos excelentes pesquisadores e é através do brincar que
executamos nossa rotina de pesquisa e obtenção de informações.
A criança muito
antes de se comunicar pela fala, pela escrita, se comunicará com
eficiência através do corpo, dos gestos e movimentos. Brincará
com cada parte do corpo e descobrirá os efeitos de cada uma,
aprendendo a obter a resposta desejada, aprendendo a se comunicar
com as outras pessoas e a suprir suas necessidades.
Mais tarde a
brincadeira se tornará o mecanismo oficial de expressar seus
pensamentos mais profundos. Notamos nas brincadeiras os anseios,
vontades, medos e dificuldades das crianças sendo expressas de
maneira única, de uma forma que não é expressa em sua comunicação
regular com os parentes e amigos.
O brincar
dentro do contexto educacional
Dentro do um
pensamento educacional podemos comentar o quanto estes elementos
positivos do brincar podem se tornar parceiros do professor.
Coordenar algo que já é natural da criança se apresenta como uma
ferramenta tão mais fácil, no sentido de se atingir melhores
resultados. Esta ferramenta pode agregar valores ótimos do ponto
de vista de formar um indivíduo pensante, que gosta de estudar e
descobrir, tem prazer em investigar e registrar novas informações,
participa e não tem medo de se expor, de errar ou acertar,
trabalha em grupo e é cooperativo. Como?
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O lúdico
gera prazer, alegria. Os alunos gostam de ir à escola desenvolver
atividades recreativas, afinal estão indo brincar. Brincando sob
a coordenação qualificada de um professor que se aprofundou no
assunto e é um mestre na arte de brincar apreende informações
valiosíssimas no âmbito motor, social, cognitivo e afetivo. Em
paralelo seu aprendizado, apesar de orientado, não apresenta
referenciais punitivos de certo e errado, ficando assim
aprendizados de atividades que devem ser repetidas por trazerem
resultados satisfatórios para o indivíduo e as que não devem mais
ser experimentadas por trazerem resultados insatisfatórios. Um
mecanismo de aprendizado ideal!
E o que este
aluno está aprendendo?
Bom, as práticas
orientadas de recreação podem desenvolver os aspectos motores de
lateralidade e direcionalidade, a coordenação motora grossa e
fina, o ritmo, a cadência, os conceitos de rápido e lento, de alto
e baixo, de forte e fraco, de apertado e espaçoso, perto e longe,
entre outros que além de motores também influenciarão o
amadurecimento cognitivo.
Também provocarão
movimentos musculares, coordenação óculo segmentar,
dimensionamento espaço temporal, estimulação do córtex cerebral,
cerebelo, sistema digestivo, labiríntico, límbico, entre outros
que atuarão diretamente no desenvolvimento corporal, e
indiretamente no sistema de inteligência, agindo ainda no controle
da ansiedade – “mente sã em um corpo são!”
Em outra ótica
podemos considerar um gigante incremento nos aspectos sociais, uma
vez que jogos recreativos bem orientados estimulam o trabalho em
grupo, a cooperação, a competição saudável, a ética, o
comprometimento com o objetivo comum, a perseverança em atingir os
objetivos, a concentração, a observação das necessidades,
dificuldades e facilidades do outro, a avaliação de suas
habilidades, enfim, muito do que se pede na vida social e
profissional.
Podemos observar
também o crescimento cognitivo provocado pelo brincar. Neste
aspecto se destacam as ações de comunicação, o exercício da
linguagem, a argumentação, o estabelecimento de metas, o
planejamento, a criação de estratégias, a articulação de variáveis
distintas, o estabelecer e o aceitar de regras, os cálculos de
volume, direção, tempo que muitos jogos propiciam, a criatividade,
o fingir ser algo que não é, o representar, o utilizar objetos de
modo criativo, com outro uso que o seu original, o perceber o
outro, o comandar, o ser comandado, bem, estes seriam algumas
habilidade intelectuais obtidas com a utilização do jogo certo, da
maneira certa.
Ainda em um novo
aspecto podemos citar o amadurecimento emocional. Uma pessoa ao
brincar se envolve de maneira integral, claro, se o brincar está
sendo dirigido de maneira adequada. Com o envolvimento permitimos
gestos novos, olhares novos, atitudes espontâneas, liberdade e
prazer. Isto pode provocar um aumento de auto-estima que por si
só seria de grande ajuda no amadurecimento emocional. Mas isto
ainda acontece em um ambiente coletivo, o que permite o ganho de
estima em relação a um grupo, o fazer parte de algo, o ser
integrante de alguma coisa maior. Crianças que brincam em grupo
de maneira bem orientadas, aprendem a fazer parte, a notar que
existe o outro, com valores, virtudes e falhas. Que você como
indivíduo também tem seus valores, virtudes e falhas, e que isto
torna as pessoas tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.
Aprendemos com a recreação a ser parte de uma sociedade, de
maneira emocionalmente equilibrada, respeitando as diferenças e
valorizando a iniciativa e a ação em detrimento de uma cobrança
social de padrões irreais, que causam baixa auto-estima e que
tolhem a vontade, que matam os sonhos de viver.
E por fim,
gostaria de dizer que o mais mágico é que isto tudo ocorre
simultaneamente, garantindo integralidade, um ser pleno de todos
os seus horizontes, e se desenvolve através do prazer, gerando
vontade e motivação.
Pois bem,
estaremos discutindo cada um destes temas isoladamente (só por
objetivos didáticos) nos próximos meses, sendo assim, se você
tiver algo para contribuir, nos encaminhe, e participe desta
construção democrática de um conteúdo que é tão rico e que está
tão esquecido de lado!
Até a próxima
amigos leitores!
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Prof.
Ronaldo Tedesco Silveira
É especialista em Educação Superior, trabalha
com recreação infantil há 17 anos, com experiências inclusive
fora do país. Atualmente realiza consultoria e
treinamento para empresas do setor, acampamentos educacionais
e escolas. |
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